A arte de viver mais e melhor: idosos se mantêm jovens e produtivos

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Por meio da literatura, da música, da poesia, da pintura, da dança e do teatro, eles se mantêm jovens. Donzílio, Marlene, Hugo e Norma passaram dos 65 anos, mas seguem trabalhando com planos para o futuro.

Donzílio tem nos repentes e na literatura energia para “ser velho” com alegria e fazer do mundo um poema

Os passos são firmes, os pensamentos voam ligeiros. Os vincos na pele são generosos, mas, nem de longe, denunciam os 81 anos dedicados à lavoura, à construção de Brasília, à música e às letras. Diariamente, o repentista e escritor Donzílio Luiz de Oliveira acorda às 5h30, caminha 5km, faz o café da manhã e passa o resto do dia ocupado com a viola ou escrevendo mais um livro — atualmente, trabalha no 12º. Do outro lado da cidade, Marlene Godoy, 79, colore a própria vida e a dos outros com pinturas e esculturas dos mais variados temas e técnicas. Corre o mundo com exposições, ensina e aprende o que há de novo por aí. A mais recente aventura ocorreu na Turquia, onde fez o curso de mosaico e que agora vai repassar o conhecimento no ateliê de casa, local no qual dá aulas.

Donzílio e Marlene tiveram vidas completamente diferentes e nunca se encontraram. Mas a vitalidade deles impressiona numa sociedade em que, até a década de 1980, as pessoas no Brasil morriam, em média, aos 63 anos. Hoje, a expectativa de vida saltou para cerca de 74 anos, segundo relatório de Desenvolvimento Humano 2014, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Os artistas descritos no início da reportagem superaram a média, cultivam e realizam os sonhos como se vivessem o auge da chamada idade produtiva.

Marlene Godoy compartilha o saber e não sofre com as etapas da vida

Para Marlene Godoy, o segredo é viver plenamente cada etapa. “É preciso aceitar todas as fases da vida. Senão, você vira a mulher de Ló, que olhou para trás e virou uma estátua de sal. Você fica amarga, chata, uma pessoa que ninguém aguenta. Para mim, a arte é a salvação. A arte, qualquer uma delas, é a cura”, diz. Donzílio pensa de forma semelhante e usa o repente para explicar como tem conseguido envelhecer bem. “O segredo para chegar a ser velho com alegria; é ser feliz como é, alegre no dia a dia, fazer do mundo um poema e da vida uma poesia”, entoa na viola.

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Além dos shows, Donzílio se dedica a produzir Humor de cabo a rabo, o 12º livro de sua autoria. Escreve tudo no computador e se orgulha de dominar a máquina para fazer o que precisa — poesias, dicas de português, charadas e história de Brasília. Para Donzílio, não existe uma fórmula para chegar tão bem à terceira idade. Segundo ele, é algo natural. “Deixando a vida por conta dela. Sempre otimista e com alto-astral. Não sei do dia de amanhã. Não sei nem do resto do dia de hoje. Fico lendo, escrevendo, cantando. Sou feliz! Mas o segredo de sê-lo, usando a gramática de Jânio Quadros, é difícil explicar”, define.

A contagem dos dias vividos é tema dos mais recorrentes em todos os campos da arte. O músico Arnaldo Antunes já dedicou a canção Envelhecer, de sua autoria, a ele mesmo e a “todos os que enfrentam e afrontam o seu medo de envelhecer”. Para o ator, diretor, coreógrafo e bailarino uruguaio Hugo Rodas, 75 anos, a chegada da velhice passou quase despercebida. Mas há dois anos, apercebeu-se das marcas físicas que o tempo deixa.

“Estava no táxi segurando aquela alça de apoio e descobri que a minha pele tinha se transformado num dinossauro, parecia pele de areia. Comecei a rir e pensei: ‘(palavrão) Olha só, agora estou como os outros velhinhos’”, lembra, às gargalhadas.

Norma Lilia, se tivesse menos 15 anos, começaria tudo de novo

Aos 69 anos, a bailarina Norma Lilia Biavaty garante: não é idosa. E a declaração, feita no escritório da escola de dança, fundada por ela há mais de meio século, está longe de ser uma dificuldade em aceitar a idade. Tem a ver com a postura diante da vida. “Não sou idosa. Sou amadurecida. Idosa é aquela pessoa que larga tudo, que não se importa com mais nada. Que parece estar só esperando a morte chegar”, define. E esse, definitivamente, não é o caso de Norma Lilia, apesar de ela dizer que está pronta e não temer a morte.

Prazer de viver

Projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que, em 2030, 13,44% de todos os habitantes do Brasil terão 65 anos ou mais. Em 2014, essa faixa etária representa apenas 7,64% da população. Segundo o IBGE, o DF abriga 167.818 idosos. Em 2030, pessoas com 65 anos ou mais deverão somar 440.734 ou 162% a mais do que hoje. Envelhecer com qualidade de vida no Brasil ainda é um desafio que exige uma revolução a ser promovida não só pelo governo, mas também por iniciativa individual.

A psicóloga clínica Graziela Vanni é especializada em terapia cognitiva comportamental. Ela é categórica ao dizer que o brasileiro não quer envelhecer e a sociedade não está preparada para lidar com os idosos. “Esteticamente, o país está bem. Há inúmeros tratamentos de beleza por aí. Mas, no sentido emocional e espiritual, não. As pessoas não conseguem enxergar o idoso nem acolhê-lo”, argumenta (leia Três perguntas para). Se a sociedade brasileira ainda é hostil aos anciãos, isso não parece ter afetado especificamente a rotina de Marlene Godoy.

Mulher, mãe e avó, aos 79 anos, ela serve de exemplo e é inspirada diariamente pelos outros. Abriu as portas do ateliê para receber quem tivesse interesse em descobrir os mistérios da combinação de ingredientes da culinária com diferentes tons de terra, para obter as cores necessárias a fim de tingir o desenho estampado na tela. Generosa, passa adiante o conhecimento da técnica da encáustica, a mais antiga do mundo, que usa cera de abelha para dar forma à imaginação.

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