Cardeal Ravasi: As Bem-aventuranças interpelam todos os homens

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Precisamente às Bem-aventuranças é dedicado o último livro do Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho da Cultura, publicado recentemente pela Mondadori. O purpurado, biblista, confronta os dois textos das Bem-aventuranças, de Mateus e Lucas, e investiga a presença destas palavras no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos, mas também fazendo referência a Moisés e ao Sinai. Um livro que propõe a atualidade do Sermão da Montanha e uma verdadeira “viagem” nos reflexos deste texto na arte, na música e na literatura, segundo nos conta o próprio Cardeal Ravasi:

“As Bem-aventuranças representam o desejo de olhar para um mundo que seja diferente. E é por este motivo que alguns as interpretaram quase que exclusivamente como destinadas à entrada no Reino de Deus perfeito. Na realidade Cristo quer, por um lado, olhar certamente para além da pequena ‘navegação’ de todos os dias; mas ao mesmo tempo quer que este horizonte longínquo inicie agora. É aquele que Ele chama de Reino de Deus, um projeto que deve começar a ser construído no interior do espaço da história presente e cada homem deve dar a sua contribuição”.

RV: A de Jesus não é uma “moral de escravos”, como acusava Nietzsche, mas parece aproximar-se mais ao discurso sobre a vítima, do estudioso René Girard. Os últimos – dos quais Jesus com a morte na Cruz é o primeiro – são na realidade vítimas sem culpa. Por isto serão bem-aventurados, numa perspectiva escatológica, e por isto já hoje devem ser ajudados…

“Certamente não é a concepção de Cristo, que não é nem mesmo uma concepção estritamente ‘pauperista’. Nós devemos conceber aqueles que são vítimas dentro da história, não simplesmente como se fossem derrotados, mas nem mesmo como se estivessem em um estado absolutamente permanente e definitivo, tanto é verdade que é dito: “Bem-aventurados aqueles que choram, porque serão consolados”. É sempre – se quisermos completar Girard – o desejo de fazer sim com que as vítimas reconheçam que a eles está destinada uma ressurreição, que é, no final das contas, o princípio da vida mesmo de Cristo”.

RV: Mesmo porque, parcialmente, humilhações e momentos de choro, de dificuldades, podem acontecer a todos os homens….

“O estado dos personagens das Bem-aventuranças não é um estado, estritamente falando, somente dos últimos da Terra: o sermão das Bem-Aventuranças diz respeito a todos os homens e às mulheres que devem viver estas realidades, que são considerados pelo mundo como realidade de fracasso, e que Cristo, pelo contrário, quer apresentar como um princípio de transformação no Reino de Deus”.

RV: O Beato Angelico, em Florença, propôs a imagem do Sermão da Montanha: Jesus indica com o índice da mão direita o céu, enquanto a esquerda segura o pergaminho das Sagradas Escrituras. Uma síntese perfeita da mensagem das Bem-aventuranças?

“Certamente esta é uma das representações mais célebres e acredito que depois tenha também um outro aspecto. Naturalmente, a indicação do transcendente, iluminado pela Palavra de Deus, mas também que se encontra sobre o monte, rodeado pelos discípulos, que representam a humanidade”.

RV: Para o Papa Francisco as Bem-aventuranças são um programa de santidade, tanto que as definiu como “a bússola da vida cristã”…

“A intenção de Jesus é a de representar o rosto do discípulo e não somente do discípulo privilegiado – veja, a este propósito, a pessoa consagrada ou outro – mas do discípulo tout court”.

RV: O senhor faz uma ampla pesquisa sobre as Bem-aventuranças, buscando vestígios até mesmo no Antigo Testamento e reflexos no imaginário coletivo: na literatura, na música, na pintura. Qual imagem tocou-lhe mais?

“Nas Bem-aventuranças do Beato Angelico se encontra justamente a presença de Jesus como Mestre e como Senhor da história. Existem, porém, também outras obras menos conhecidas, quem sabe distantes…. E mesmo que a Bem-aventurança não seja citada explicitamente, uma boa parte dos romances de Dostoevskij são uma meditação sobre vítimas da história”.

RV: Há poucos dias o senhor festejou 50 anos de sacerdócio. A sua, certamente, foi uma vida rica de experiências de fé, mas também de cultura. Este livro, num certo sentido, resume o tesouro, quer da fé como de cultura, que o senhor cultivou neste anos?

“Todos, ao menos os sacerdotes, têm um momento no qual podem referir-se como que a uma fonte. Para mim foi uma experiência que fiz quando era criança. Acho que tinha uns quatro anos. Estava sobre uma colina com meu avô, quando vi que no vale passava um trem e ouvi o apito deste trem, um som que provocava melancolia. Assim, naquele momento, tive a primeira percepção da dor, da vida que acaba, e a partir daquele momento teve início a busca de algo que ficasse, de algo que pertencesse ao horizonte do divino. Nas Bem-Aventuranças, estes dois aspectos se entrecruzam: de um lado existe a experiência basilar, aquela do negativo, e por outro existe esta palavra – Bem aventurados – que é a tensão para o Eterno, que depois eu pude elaborar naturalmente, tendo a sorte de viver longamente no estudo, no aprofundamento, sobretudo no diálogo com o mundo contemporâneo”.

Por Rádio Vaticano

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