Navegar é preciso e faz bem ao cérebro: o impacto da Internet nas funções cerebrais dos idosos – Parte II

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Anteriormente, na parte I desse texto, apresentamos alguns estudos que evidenciaram o impacto gerado pelo computador nos cérebros de idosos que utilizam a Internet. Agora, nesse momento, abordaremos algumas táticas para inserir as pessoas com mais de cinquenta e nove anos no mundo digital.

Primeiramente, vamos acabar com um velho mito? Muitos dizem que os idosos não aprendem mais, devido alguns fatores negativos ligados ao processo de envelhecimento. Caros amigos e amigas, tal enunciado representa uma bela falácia! Pois, o dom de aprender nos acompanha pelo resto da vida, conseguimos aprender coisas novas mesmo quando centenários.

Dessa maneira, a única diferença entre um grupo de jovens e outro de idosos, é que os estudantes da terceira idade que demonstram interesse em aprender a usar o computador necessitam de mais tempo para alcançar tal objetivo. Assim, o ensino deve ser de forma gradual, mais lenta do que o com alunos mais jovens, e, para melhor fixação dos conteúdos ministrados, deve-se sempre revisá-los (lembrem-se: repetir ajuda na memorização). Mas, quando há o aprendizado, independentemente de ser jovem ou idoso, ambos guardarão a informação por um tempo parecido.

Nesse contexto, diversas oficinas de introdução à informática têm sido elaboradas para os idosos, mas ainda de forma muito técnica. Esquecem-se de que este público alvo precisa de um tratamento diferenciado dentro de suas expectativas e possibilidades. Outro ponto importante negligenciado é a contextualização das aulas, a aprendizagem acontece com mais facilidade quando se torna mais interessante e significativa para o educando. Desta forma, a todo o instante tem-se que trabalhar com temas de interesse do educando, como saúde, turismo, culinária, esportes, entre outros.

Nesta lógica, mesmo que os idosos tenham dificuldades ou limitações físicas que não favoreçam o aprendizado, há estratégias para amenizá-las:
1.Deve-se constituir grupos pequenos para ter um melhor acompanhamento dos alunos;
2.Relacionar novos conhecimentos com experiências passadas, é importantíssimo para a consolidação do que foi ensinado;
3.Deve-se acompanhar o ritmo dos alunos, acelerar os treinos pode não dar bons resultados;
4.Proporcionar oportunidades de se ter sucesso em algo durante as oficinas evita frustrações;
5.Fornecer pequena quantidade de informação e resumi-las, aumenta a retenção e a recordação do conteúdo ministrado;
6.Usar práticas e repetições para reforçar a aprendizagem.
Diante de alguns problemas que são grandes desafios para quem está iniciando neste fantástico mundo novo que é a Internet. Weiss-Morris (2002) aponta também algumas abordagens recomendadas aos monitores e professores que atuam na área da aprendizagem de informática para idosos (Quadro 1).

Quadro 1.  Recomendações para os monitores e professores, diante de alguns problemas e dificuldades vividas pelos estudantes idosos, no ensino de informática.

Desafio encontrado pelos idosos Abordagem recomendada para o professor ou para o próprio idoso
Medo de que eles possam danificar o computador ou prejudicá-los Fazer muitos elogios e tranquiliza-los, utilizar atividades lúdicas como jogos de cartas, fazer contato visual e circular entre os alunos; mostrar preocupação e empatia.
Eliminar a frustração Dê pausas frequentes ou diga ao grupo de alunos para fazer pausas, sempre que precisar.
Medo de errar Auxiliá-lo a corrigir o erro dizendo algo como: “podemos trabalhar um pouco melhor se fizermos isto ou aquilo…”
Alguns se sentem melhor na parte da manhã e outros se sentem melhor na parte da tarde Oferecer horários flexíveis para os alunos (ofereça duas turmas).
Conceitos de difícil compreensão para os alunos Relacionar os conceitos difíceis com conceitos ou objetos familiares, por exemplo, o armazenamento em disco é como uma gaveta onde guardamos documentos.
Ficar perdido / faltar em uma aula Construir revisões extras e sempre rever o conteúdo da aula passada
Termos que dificultam a aprendizagem Use uma linguagem simples, por exemplo, ao invés de e-mail, diga endereço eletrônico.
Dificuldades relacionadas a softwares Ao ensinar softwares como o MS Word, faça com que os alunos construam uma lista de músicas e cantores favoritos, por exemplo, Frank Sinatra e Roberto Carlos.
Dificuldade em aprender a utilizar a Internet O estudante deve aprender a utilizar a Internet, através de temas que lhe agrade, por exemplo, jardinagem, saúde, ou investimentos.
Dificuldade com tarefas e conteúdos ministrados Faça demonstrações práticas, divida as tarefas e o conteúdo a ser ministrado nas aulas em pequenos pedaços.
Ansiedade Relacione a informação ensinada às suas experiências passadas.
Medo de Testes Inicialmente, faça testes fáceis para que os alunos se sintam bem-sucedidos e confiantes. E gradualmente aumente a dificuldade.
Problemas de visão, óculos bifocais, lente progressiva Mova o monitor para uma distância adequada em relação ao estudante.
Dificuldade para ler a apostila Forneça apostilas com letras grandes.
Dificuldade com o mouse, devido à artrite ou outra limitação Existe o mouse TrackBall disponível para estudantes com deficiência.
Dificuldade em manusear o mouse Girar o mouse 60 graus no sentido contrário e utilizá-lo com o polegar em cima do botão esquerdo do mouse; abrandar a velocidade do mouse nas configurações do MS Windows.
Déficit auditivo O estudante deve ficar próximo ao professor, assim este será ouvido mais facilmente.

 

Por fim, um grande desafio para o idoso hoje é sua adaptação às exigências do mundo moderno, entre elas a tecnologia da informática ligada ao uso da Internet, que tem seu uso cada vez mais disseminado entre a população, fazendo com que o idoso fique mais próximo desta realidade. A Internet apresenta uma série de facilidades ao idoso que pode comunicar-se com parentes que moram em lugares distantes, bem como ampliar seu círculo de amizades através de chats variados. Ou buscar filmes, imagens e músicas na rede, tornando a Internet uma opção de lazer.

Há muitos cursos de introdução à informática, oferecidos por empresas especializadas, no entanto poucos se destinam aos idosos. Algumas universidades abertas para a terceira idade oferecem cursos de introdução sobre os recursos do computador. Porém, os cursos ainda não apresentam uma metodologia de ensino e aprendizagem adequada, esquecem-se de que o uso desta ferramenta pode trazer inúmeros benefícios às funções cognitivas dos idosos que querem navegar nesse novo mundo digitalizado.

Texto por: Tiago Nascimento Ordonez (Gerontólogo e Pós-Graduando em Informática em Saúde pela UNIFESP), Eva Bettine de Almeida (Gerontóloga e Pós-graduanda em Reabilitação Neuropsicológica pelo HC/FMUSP) e Thais Bento Lima-Silva (Gerontóloga e Doutoranda em Neurologia pela USP).

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